quinta-feira, 26 de abril de 2012

ENTREVISTA DE DESLIGAMENTO: UMA PRÁTICA COMPLEMENTAR NO PROCESSO DE DESLIGAMENTO DO TRABALHADOR EM CONTEXTOS ORGANIZACIONAIS




O processo de globalização transforma o cotidiano das nações, das organizações e das pessoas. Esse processo é gerador de mudanças na medida em que provoca o inesperado, o incerto e a ausência de controle e limites, o que o torna uma força geradora de incertezas e riscos. O desemprego, no mundo globalizado, tem assumido proporções alucinantes e está entre os problemas sociais mais graves. (Paula e Silva, 2005 apud Aguiar, 2010). Segundo Paula e Silva (2010) o sistema capitalista, no seu impacto por acumulação de capital, provoca o descarte em massa de trabalhadores do processo produtivo, com consequências negativas diversas para a sociedade, entre elas o desemprego.

Em tempos passados, um tempo longo de trabalho na empresa era sinônimo de dedicação, lealdade e compromisso com o trabalho e com a empresa. Essa lógica não se adequou aos cenários pós-reestruturação, derivados de demissões coletivas, enxugamentos e cortes. Nesse novo quadro as demissões são mais freqüentes, integrando um processo de construção da identidade profissional com maior intensidade do que nas relações de trabalho anteriores. (Machado, 2004 apud Caldas2000).

Na medida em que há uma articulação entre trabalho e identidade, o trabalho se torna um dos elementos importantes na construção de auto-representações por parte dos indivíduos, definindo suas lógicas de ação. “O trabalho é um meio para o indivíduo realizar uma tarefa e estabelecer relacionamentos com outros indivíduos, sendo que a inserção no mundo do trabalho aparece como resultado de uma vida ‘adaptada’ e ‘normal’ ”. (Machado, 2004)
Paula e Silva (2010 apud Minarelli, 1995) diferenciam trabalho de emprego. Para eles, emprego é do empregador, daquele que empreende um negócio. Em contrapartida, o Trabalho corresponderia a qualquer atividade humana desenvolvida com propósitos e finalidades e não implicaria necessariamente qualquer tipo de vínculo empregatício. Partindo desse pressuposto, Paula e Silva (2010 apud Milkovich, 2000) pensam que, para que ocorra a demissão, faz-se necessário o estabelecimento de um vínculo empregatício entre empregado e empregador. “As demissões são o término do emprego de trabalhadores permanentes ou temporários, por iniciativa do empregador ou do próprio empregado”.

Segundo Dejours (2007) o trabalhador não chega a seu local de trabalho como uma máquina nova. Ele possui uma história pessoal que se concretiza por meio de certa qualidade de suas aspirações, de seus desejos, de suas motivações, de suas necessidades psicológicas, os quais integram sua história passada. Isso confere a cada indivíduo características únicas e pessoais.

Para Machado (2004 apud Schirato, 2000), “além de uma relação voltada para a produção do trabalho e para o lucro, dentro das organizações há grupos com relações afetivas, com ligações em torno de interesses comuns, por vezes até contrários aos interesses da organização”. Nesse sentido, como salienta Machado (2004 apud Jacques, 1997), há uma articulação indispensável entre trabalho e identidade, tanto no plano pessoal, quanto social e profissional. Assim, os espaços de trabalho vão se constituir em oportunidades para aquisição de atributos qualificativos da identidade de trabalhador.

A auto categorização do indivíduo, enquanto integrante do grupo em que trabalha, estabelece-se por meio de sentimentos de vinculação e diferenciação. Desligar-se do trabalho e consequentemente do grupo, representa uma ruptura desse processo, que pode dar lugar a uma incerteza subjetiva, a menos que o desligamento tenha sido antecipadamente planejado. Portanto, a demissão não constitui um fato isolado, senão uma interrupção nessa construção psicológica decorrente da associação trabalho e identidade. (Machado, 2004).

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Fonte: Psicologado

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