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segunda-feira, 14 de maio de 2012

NÃO PRECISA CASAR. SOZINHO É MELHOR



Com 41 anos de clínica, o médico psiquiatra Flávio Gikovate acompanhou os fatos mais marcantes que mudaram a sexualidade no Brasil e no mundo. Por meio de mais de 8.000 pessoas atendidas, assistiu ao impacto da chegada da pílula anticoncepcional na década de 60 e a constituição das famílias contemporâneas, que agregam pessoas vindas de casamentos do passado. Suas reflexões sobre o amor ao longo de esse tempo foram condensadas no seu 26º livro, Uma História de Amor... com Final Feliz. Na obra, a oitava sobre o tema, Gikovate ataca o amor romântico e defende o individualismo, entendido não como descaso pelos outros e sim como uma maneira de aumentar o conhecimento de si próprio. Tendo sido um dos primeiros a publicar um estudo no país sobre sexualidade, atuou em diversos meios de comunicação, como jornais e revistas e na televisão. Atualmente, possui um programa na rádio, em que responde perguntas feitas por ouvintes. Aos 65 anos, ele atendeu a reportagem de Veja em seu consultório no elegante bairro dos Jardins, em São Paulo.



Veja - O senhor diria para a maioria das pessoas que o casamento pode não ser uma boa decisão na vida? 
Gikovate - Sim. As pessoas que estão casadas e são felizes são uma minoria. Com base nos atendimentos que faço e nas pessoas que conheço, não passam de 5%. A imensa maioria é a dos mal casados. São indivíduos que se envolveram em uma trama nada evolutiva e pouco saudável. Vivem relacionamentos possessivos em que não há confiança recíproca nem sinceridade. Por algum tempo depois do casamento, consideram-se felizes e bem casados porque ganham filhos e se estabelecem profissionalmente. Porém, lá entre sete e dez anos de casamento, eles terão de se deparar com a realidade e tomar uma decisão drástica, que normalmente é a separação.


Veja - Ficar sozinho é melhor, então?
Gikovate - Há muitos solteiros felizes. Levam uma vida serena e sem conflitos. Quando sentem uma sensação de desamparo, aquele "vazio no estômago" por estarem sozinhos, resolvem a questão sem ajuda. Mantêm-se ocupados, cultivam bons amigos, lêem um bom livro, vão ao cinema. Com um pouco de paciência e treino, driblam a solidão e se dedicam às tarefas que mais gostam. Os solteiros que não estão bem são geralmente os que ainda sonham com um amor romântico. Ainda possuem a idéia de que uma pessoa precisa de outra para se completar. Pensam, como Vinicius de Moraes, que "é impossível ser feliz sozinho". Isso caducou. Daí, vivem tristes e deprimidos.


Veja - Por que os casamentos acabam não dando certo? 
Gikovate - Quase todos os casamentos hoje são assim: um é mais extrovertido, estourado, de gênio forte. É vaidoso e precisa sempre de elogios. O outro é mais discreto, mais manso, mais tolerante. Faz tudo para agradar o primeiro. Todo mundo conhece pelo menos meia-dúzia de casais assim, entre um egoísta e um generoso. O primeiro reclama muito e, assim, recebe muito mais do que dá. O segundo tem baixa auto-estima e está sempre disposto a servir o outro. Muitos homens egoístas fazem questão que a mulher generosa esteja do lado dele enquanto ele assiste na televisão os seus programas preferidos. Mulheres egoístas não aceitam que seus esposos joguem futebol. Consideram isso uma traição. De um jeito ou de outro, o generoso sempre precisa fazer concessões para agradar o egoísta, ou não brigar com ele. Em nome do amor, deixam sua individualidade em segundo plano. E a felicidade vai junto. O casamento, então, começa a desmoronar. Para os meus pacientes, eu sempre digo: se você tiver de escolher entre amor e individualidade, opte pelo segundo.


Veja - Viver sozinho não seria uma postura muito individualista?
Gikovate - Não há nada de errado em ser individualista. Muitos dos autores contemporâneos têm uma postura crítica em relação a isso. Confundem individualismo com egoísmo ou descaso pelos outros. São conceitos diferentes. Outros dizem que o individualismo é liberal e até mesmo de direita. Eu não penso assim. O individualismo corresponde a um crescimento emocional. Quando a pessoa se reconhece como uma unidade, e não como uma metade desamparada, consegue estabelecer relações afetivas de boa qualidade. Por tabela, também poderá construir uma sociedade mais justa. Conhecem melhor a si próprio e, por isso, sabem das necessidades e desejos dos outros. O individualismo acabará por gerar frutos muito interessantes e positivos no futuro. Criará condições para um avanço moral significativo.


Veja - Por que os casamentos normalmente ocorrem entre egoístas e generosos?
Gikovate - A idéia geral na nossa sociedade é a de que os opostos se atraem. E isso acontece por vários motivos. Na juventude, não gostamos muito do nosso modo de ser e admiramos quem é diferente de nós. Assim, egoístas e generosos acabam se envolvendo. O egoísta, por ser exibicionista, também atrai o generoso, que vê no outro qualidades que ele não possui. Por fim, nossos pais e avós são geralmente uniões desse tipo, e nós acabamos repetindo o erro deles.


Veja - Para quem tem filhos não é melhor estar em um casamento? E, para os filhos, não é melhor ter pais casados?
Gikovate - Para quem pretende construir projetos em comum – e ter filhos é o mais relevantes deles – o melhor é jogar em dupla. Crianças dão muito trabalho e preocupação. É muito mais fácil, então, quando essa tarefa é compartilhada. Do ponto de vista da criança, o mais provável é que elas se sintam mais amparadas quando crescem segundo os padrões culturais que dominam no seu meio-ambiente. Se elas são criadas pelo padrasto, vivem com os filhos de outros casamentos da mãe, mas estudam em uma escola de valores fortemente conservadores e religiosos, poderão sentir algum mal-estar. Do ponto de vista emocional, não creio que se possa fazer um julgamento definitivo sobre as vantagens da família tradicional sobre as constituídas por casais gays ou por um pai ou mãe solteiros. Estamos em um processo de transição no qual ainda não estão constituídos novos valores morais. É sempre bom esperar um pouco para não fazer avaliações precipitadas.


Veja - Que conselhos você daria para um jovem que acaba de começar na vida amorosa? 
Gikovate - É preciso que o jovem entenda que o amor romântico, apesar de aparecer o tempo todo nos filmes, romances e novelas, está com os dias contados. Esse amor, que nasceu no século XIX com a revolução industrial, tem um caráter muito possessivo. Segundo esse ideal, duas pessoas que se amam devem estar juntas em todos os seus momentos livres, o que é uma afronta à individualidade. O mundo mudou muito desde então. É só olhar como vivem as viúvas. Estão todas felizes da vida. Contudo, como muitos jovens ainda sonham com esse amor romântico, casam-se, separam-se e casam-se de novo, várias vezes, até aprender essa lição. Se é que aprendem. Se um jovem já tem a noção de não precisa se casar par ser feliz, ele pulará todas essas etapas que provocam sofrimento.


Veja - As mulheres são mais ansiosas em casar do que os homens? Por quê?
Gikovate - As mulheres têm obsessão por casamento. É uma visão totalmente antiquada, que os homens não possuem. Uma vez, quando eu ainda escrevia para a revista Cláudia, o pessoal da redação fez uma pesquisa sobre os desejos das pessoas. O maior sonho de 100% das moças de 18 a 20 anos de idade era se casar e ter filho. Entre os homens, quase nenhum respondeu isso. Queriam ser bons profissionais, fazer grandes viagens. Essa diferença abismal acontece por razões derivadas da tradição cultural. No passado, o casamento era do máximo interesse das mulheres porque só assim poderiam ter uma vida sexual socialmente aceitável. Poderiam ter filhos e um homem que as protegeria e pagaria as contas. Os homens, por sua vez, entendiam apenas que algum dia eles seriam obrigados a fazer isso. Nos dias que correm, as razões que levavam mulheres a ter necessidade de casar não se sustentam. Nas universidades, o número de moças é superior ao de rapazes. Em poucas décadas, elas ganharão mais que eles. Resta acompanhar o que irá acontecer com as mulheres, agora livres sexualmente, nem sempre tão interessadas em ter filhos e independentes economicamente.


Veja - Como será o amor do futuro?
Gikovate - Os relacionamentos que não respeitam a individualidade estão condenados a desaparecer. Isso de certa forma já ocorre naturalmente. No Brasil, o número de divórcios já é maior que o de casamentos no ano. Atualmente, muitos homens e mulheres já consideram que ficarão sozinhos para sempre ou já aceitam a idéia de aguardar até o momento em que encontrarão alguém parecido tanto no caráter quanto nos interesses pessoais. Se isso ocorrer, terão prazer em estar juntos em um número grande de situações. Nesse novo cenário, em que há afinidade e respeito pelas diferenças, a individualidade é preservada. Eu estou no meu segundo casamento. Minha mulher gosta de ópera. Quando ela quer ir, vai sozinha. E não há qualquer problema nisso.


Veja - Quando duas pessoas decidem morar juntas, a individualidade não sofre um abalo?
Gikovate - Não necessariamente elas precisarão morar juntas. Em um dos meus programas de rádio, um casal me perguntou se estavam sendo ousados demais em se casar e continuarem morando separados. Isso está ficando cada dia mais comum. Há outros tantos casais que moram juntos, mas em quartos separados. Se o objetivo é preservar a individualidade, não há razão para vergonha. O interessante é a qualidade do vínculo que existirá entre duas pessoas. No primeiro mundo, esse comportamento já é normal. Muitos casais moram até em cidades diferentes.


Veja - É possível ser fiel morando em casas ou cidades diferentes? 
Gikovate - A fidelidade ocorre espontaneamente quando se estabelece um vínculo de qualidade. Em um clima assim, o elemento erótico perde um pouco seu impacto. Por incrível que pareça, essas relações são monogâmicas. É algo difícil de explicar, mas que acontece.



Veja - Com o fim do amor romântico, como fica o sexo? 
Gikovate - Um dos grandes problemas ligados à questão sentimental é justamente o de que o desejo sexual nem sempre acompanha a intimidade efetiva, aquela baseada em afinidade e companheirismo. É incrível como de vez em quando amor e sexo combinam, mas isso não ocorre com facilidade. Por outro lado, o sexo com um parceiro desconhecido, ou quase isso, é quase sempre muito pouco interessante. Quando acaba, as pessoas sentem um grande vazio. Não é algo que eu recomendaria. Hoje, as normas de comportamento são ditadas pela indústria pornográfica e se parece com um exercício físico. O sexo então tem mais compromisso com agressividade do que com amor e amizade. Jovens que têm amigos muito chegados e queridos dizem que transar com eles não tem nada a ver. Acham mais fácil transar com inimigos do que com o melhor amigo. Penso que, com o amadurecimento emocional, as pessoas tenderão a se abster desse tipo de prática.


Para ler a entrevista completa, clique aqui.

Fonte: Revista Veja

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

PSIQUIATRIA VIVE CRISE POR FALTA DE PROVAS CIENTÍFICAS, DIZ NOBEL


A psiquiatria está em crise porque falta comprovação biológica para seus conceitos. Essa é a opinião do neurobiólogo Eric Kandel, 81, ganhador do Prêmio Nobel de Medicina de 2000.
O cientista da Universidade Columbia, de Nova York, premiado por seus estudos com memória, desembarca nesta semana no Rio de Janeiro para participar do Congresso Brasileiro de Psiquiatria.

Em entrevista , Kandel condenou o uso de remédios como a ritalina (droga para tratar deficit de atenção) para melhorar a concentração de pessoas saudáveis.

Ele falou também sobre a validade da psicanálise, que pode cobrir lacunas da psiquiatria, caso adote padrões científicos mais rígidos. O pesquisador comentou também sobre sua nova invenção: um camundongo "esquizofrênico" para testar medicamentos.

Folha - Psiquiatras estão debatendo mudanças no manual de diagnósticos de transtornos mentais. Muitos acham que o livro não pode tentar ser muito objetivo. O que o sr. acha?

Eric Kandel - A preocupação com a objetividade foi introduzida há uns 20 anos quando houve uma tentativa de validar os critérios do manual para descrever transtornos. Isso foi extremamente importante para que diferentes psiquiatras pudessem dar o mesmo diagnóstico a um mesmo paciente.

O que é triste é que não houve muitos avanços desde então. Uma das razões para isso é que os psiquiatras não têm os chamados "marcadores biológicos" à disposição. Se você diagnostica diabetes ou hipertensão, pode usar medições objetivas, independentes. Não precisa se basear apenas naquilo que o paciente lhe conta. Nós, psiquiatras, ainda temos que recorrer à história do paciente.

O único grande avanço foi o trabalho de Helen Mayberg sobre depressão e a área chamada 25 do córtex cerebral. Ela descobriu que pessoas deprimidas tendem a ter hiperatividade nesta área. Quando os pacientes são tratados e os sintomas revertem, isso pode ser observado na área 25. Em pacientes para os quais drogas ou psicoterapia não haviam funcionado, ela descobriu que a estimulação cerebral [com sinais elétricos] poderia ter sucesso.

Mas, à exceção do trabalho de Mayberg, não temos outros exemplos.
Precisamos desesperadamente de bons marcadores biológicos. Sem isso, podemos publicar quantas edições quisermos do manual, que não chegaremos a lugar nenhum.

Algumas pesquisas pioneiras sugerem que vítimas de estresse pós-traumático poderiam se beneficiar de drogas que apaguem suas memórias ruins. Isso já foi feito em ratos. O que o sr. acha disso?

É assustador. Não gosto nem um pouco dessa idéia. Eu gosto da idéia de drogas que estimulem a memória. Se você tem problemas de memória, não há razões para não tomar algo para melhorar. Livrar-se de memórias é muito perigoso. Eu lido melhor com a idéia de que as pessoas tentem se acostumar com suas memórias. Há varios tipos de tratamento para essa dessensibilização. Acho OK tentarem se livrar da ansiedade associada à memória.

Acho aceitável também, que, em uma guerra, soldados tomem drogas betabloqueadoras para que não tenham uma reação excessivamente emocional com a experiência. Mas aniquilar memórias é uma coisa ruim. Você é quem você é por causa das memórias. O caráter das pessoas não deve ser submetido a cirurgias farmacológicas.

Houve progresso no entendimento dos mecanismos biológicos de algum outro transtorno psicológico?

Acho que houve no próprio caso do transtorno do estresse pós-traumático. Nós sabemos alguma coisa sobre a atividade da amígdala cerebral, que fica hiperativa nessas pessoas. Algumas pessoas estão desenvolvendo interessantes tratamentos de dessensibilização em conjunto com o uso de fármacos. É possível ver algum progresso nisso no futuro.

Isso é importante hoje, pois vivemos num momento em que há mais incidentes e mais vítimas entre soldados aqui nos EUA do que havia na Segunda Guerra Mundial. Por que o numero aumenta? Uma das razões pode ser a maior facilidade de se fazer diagnósticos, mas outra coisa é que, naquela época, havia um programa americano que enviava psiquiatras para servir nos campos de batalha. E eles estavam à disposição dos soldados quando estes precisavam. Isso pode ter feito diferença.

O sr. veio aqui para apresentar um camundongo geneticamente modificado que seu grupo criou para o estudo da esquizofrenia. A esquizofrenia afeta capacidades mentais humanas. Como é possível usar um camundongo para estudá-la?

A esquizofrenia tem três classes de sintomas. Há os "positivos" ilusões, alucinações e loucura, os "negativos" _reclusão, isolamento social e falta de motivação --e os "cognitivos"-- a dificuldade de organizar as ideias e trabalhar. É difícil criar um modelo para estudar os sintomas positivos em cobaias, mas podemos modelar os cognitivos e negativos.

Criamos um camundongo cujo corpo estriado [estrutura no núcleo do cérebro] produz em excesso uma proteína que os neurônios usam para captar o neurotransmissor dopamina. Essa é uma lesão genética que ocorre em parte dos pacientes com esquizofrenia e, funcionalmente, leva a uma característica compartilhada pela maioria dos esquizofrênicos. Nós obtivemos então camundongos que claramente têm problemas de memória de curto prazo e em funções cognitivas. Os mesmos roedores têm dificuldade de interação social e baixa motivação.

A falta motivação não é um sintoma mais característico da depressão do que da esquizofrenia?

É um sintoma compartilhado pelas duas doenças, mas é um aspecto muito importante da esquizofrenia. Nós encontramos um medicamento que supera essa deficiência e a restaura ao normal. Achamos que isso poderá ser útil para tratamentos de depressão também.

Quão longe essa droga está de chegar ao mercado?

Nós fizemos só os testes em camundongos. Estamos agora conversando com empresas farmacêuticas em busca de alguma que esteja interessada em experimentá-la em pessoas. Ainda é uma fase bem inicial.

O que o sr. acha de usar drogas, como a ritalina (receitada para deficit de atenção) para "turbinar" a inteligência, aumentando a concentração?

Não acho que seja boa ideia para pessoas saudáveis. Essas drogas devem ser prescritas para pessoas com problemas cognitivos. Não devem nunca ser vendidas sem receita. Não são vitaminas.

O sr. vem falar no Brasil, onde a psicanálise é relativamente bem aceita. Nos EUA, não é assim. Que papel o sr. vê para as ideias de Freud hoje?

Não vejo problema em ler Freud da mesma forma que lemos Nietzche, Dostoiévski ou Shakespeare --grandes pensadores que escreveram sobre a mente humana. Mas se você quer que a psicanálise seja uma terapia eficaz, é preciso ter estudos que mostrem resultado. É necessário explicar o que ocorre no cérebro. Isso seria trabalhoso, mas precisa ser feito.
O maior problema não é com Freud, mas com aqueles que o sucederam. Eles não desenvolveram uma tradição científica na psicanálise. O treinamento para psicanálise deveria mudar, de forma que uma parte das pessoas formadas se dedicasse exclusivamente à pesquisa.

Como será possível provar a eficácia da psicanálise em termos objetivos? Seria como comparar a eficácia de uma droga a um placebo?

Você conhece Aaron Beck? Ele era um psiquiatra da Universidade da Pensilvânia, uma pessoa incrível, que já estava interessado em testar as idéias de Freud 40 anos atrás. Freud afirmava que pessoas deprimidas têm uma grande carga de ira que se volta contra elas mesmas, de maneira inconsciente.

Ele ouvia então os relatos de sonhos dos pacientes --pois os sonhos são "a estrada de ouro" para se acessar o inconsciente-- e descobriu que esses pacientes não estavam mais irados que qualquer outra pessoa. Essas pessoas, porém, tinham uma distinção característica: elas se consideravam "perdedoras" na vida. Achavam que tinham falhado no casamento e no trabalho, que não eram bons pais etc.

Quando Beck tentou olhar para o que estava acontecendo, ele viu que muitos deles na verdade estavam se saindo bastante bem em suas vidas. Beck, então, apontou a discrepância entre como esses pacientes achavam que estavam se saindo e como eles realmente funcionavam na vida. Ele os ajudou a mudar a maneira de pensar e de funcionar, e isso foi possível com umas 20 sessões de terapia.

Ele escreveu então um livro com sua "receita", e outras pessoas seguiram seu método, com sucesso.

Depois disso Beck criou grupos para comparação: um grupo de pessoas que não recebiam nada além de medicamentos antidepressivos e um de pessoas que passaram por seu método, a terapia cognitivo-comportamental. Depois, comparou o desempenho de cada um com placebo.

Ele viu que em casos de depressão suave ou moderada, esse tipo de psicoterapia era tão bom quanto inibidores seletivos de recaptação de serotonina [principal classe de drogas antidepressivas]. Em casos de depressão severos a diferença não era tanta, mas o efeito da psicoterapia combinado com os medicamentos era melhor que o das pílulas sozinhas.

Isso foi um marco sobre como estudos podem avaliar os resultados da psicoterapia. É por isso hoje que o sistema de saúde britânico reembolsa gastos de pacientes de terapia cognitivo-comportamental, mas não os de outros tipos de psicoterapia.

É isso que precisa ser feito com a psicanálise. É preciso ter um grupo de controle, um grupo experimental, um placebo. É preciso comparar a psicanálise à terapia cognitivo comportamental.

Já existem algumas tentativas de se fazer isso hoje, e elas parecem encorajadoras. É possível imaginar que alguns pacientes precisem de uma abordagem que os ajude a olhar melhor para si próprios, algo que a terapia cognitivo-comportamental não faz. Ela é um tipo de terapia que não discute com você como sua mãe e seu pai te tratavam. Ela lida com o aqui e agora.
Em algumas circunstâncias, ela pode funcionar bem, mas em outras talvez seja preciso explorar melhor o passado da pessoa, onde a psicanálise ajudaria. É preciso descobrir quais são essas circunstâncias.

Para ler a entrevista completa, clique aqui.

Fonte: Folha.com

sábado, 17 de setembro de 2011

O QUE MAIS AFLIGE O ADOLESCENTE DE HOJE?


A Secretaria de Estado da Saúde está promovendo um ciclo de palestras sobre a adolescência. Esta é uma fase da vida em que o indivíduo está em formação e várias coisas geram conflitos internos, que na hora não parece ter solução. Para avaliar o que mais aflige os adolescentes e dar algumas dicas de como lidar com essas situações, Patrícia Rizzo recebe nos estúdios da Jovem Pan Online o enfermeiro Luciano Bertolaccini e a psicóloga Ana Paula Barcelos Correia.


sábado, 27 de agosto de 2011

O NOVO PAI - ENTREVISTA COM JORGE FORBES


Jorge Forbes fala sobre o novo pai na BAND NEWS FM - em entrevista para Inês de Castro no programa "Isso é coisa da sua cabeça".

Para acessar a entrevista, clique aqui.

Fonte: www.jorgeforbes.com.br

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

"A RAZÃO NÃO DÁ CONTA DE TUDO"; EMOÇÕES GERAM SAIAS JUSTAS


A psicanalista Silvia Alexim Nunes, autora do livro "A Psicopatologia da Vida Cotidiana - Como Freud Explica", comenta em entrevista à Livraria da Folha como evitar frequentes situações constrangedoras, como esquecer o nome de um conhecido, pensar uma coisa e falar outra e até tropeços em escadas ou deixar escorregar objetos de suas mãos.

"A razão não dá conta de tudo", afirma. Com isso, a psicanalista quer dizer que em algum momento você vai deixar "escapar" um ato falho, seja ele por conta de raiva, amor ou desejo. Contudo, existem algumas estratégias para tentar fazer a razão prevalecer frente a emoção, e assim passar por menos situações constrangedoras.

Confira.

A Psicopatologia da Vida Cotidiana - Como Freud Explica" (Para ler Freud)
Autora: Silvia Alexim Nunes
Editora: Civilização Brasileira
Páginas: 140
Quanto: R$ 19,90
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da
Livraria da Folha

Fonte: Folha.com

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

SOS AO CAOS DA HUMANIDADE



Localizado no sul da África, e fronteiriço com a República da África do Sul, Botsuana, Zâmbia e Moçambique, o Zimbábue hoje tem uma população local de aproximadamente 12.576.741 habitantes. Esse local, que enfrenta sérios conflitos internos, atualmente é a casa e o trabalho do psicólogo Márcio Gagliato, de 30 anos, que faz parte do grupo The Center for the Victims of Torture no Zimbábue, que auxilia vítimas de tortura naquela região. Como ativista humanitário há mais de cinco anos, Márcio já passou por diversas regiões do planeta, na busca por aplicar a Psicologia da Emergência com o objetivo de levar conforto e diálogo para áreas onde, muitas vezes, o caos impera. Há um ano no Zimbábue, o psicólogo já trabalhou em regiões como Rio de Janeiro, Timor Leste, Sudão, Somália e Ruanda. Márcio é psicólogo e mestre em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), foi integrante do Columbia University Human Rights Fellowship Program, dos EUA, e da bolsa para jovens investigadores do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, em Portugal. Já trabalhou em mais de dez países e passou por ONGs internacionais como CARE International, Save the Children e pela Unesco.



O psicólogo Márcio Gagliato tem a Psicologia da Emergência como sua principal aliada no trabalho que busca atender os agentes humanitários e grupos locais que vivem lado a lado com a guerra, a tortura e a fome.

O que é a Psicologia da Emergência?
Márcio Gagliato -
Eu não acredito que exista uma definição e um consenso real sobre esse tema. A Psicologia da Emergência é um termo que deve buscar sempre sua construção, principalmente aqui no Brasil. É uma área que tem chamado muito a atenção e despertado a curiosidade das pessoas. Eu, particularmente, tenho uma postura muito crítica à atualidade de toda essa curiosidade, no sentido de que esta é uma área muito importante e que não comporta a popularidade desejada. Acredito que antes de pensarmos em um papel puramente assistencial, devemos pensar, de antemão, em uma postura preventiva. O papel de remediar deveria ser minimizado, a resposta à situação de emergência é importante, mas não deveria ser fundamental.

Haja vista que o fator preponderante, que vai afetar diretamente a resposta à situação de emergência, é a parte de prevenção e desenvolvimento de certa área. Por exemplo, você pode passar a vida inteira respondendo uma emergência de crise de seca no centro-sul da Somália, no Quênia ou no Nordeste do Brasil. Pode distribuir comida para o povo da região o tempo todo, quando, na verdade, a resposta mais eficiente seria uma visão de desenvolvimento daquela área, não uma visão de responder à emergência pontualmente. O nosso gasto de energia e de conhecimento deve ser na construção de algo efetivo, de uma solução que tenha impacto a longo prazo. Existe um efeito midiático muito grande em torno das emergências. O exemplo mais contraditório foi o ocorrido no desastre do Haiti. O que foi investido naquela região depois da emergência não foi investido durante 10, 20 anos de situação de calamidade concreta. Eu não vejo a Psicologia da Emergência como uma nova área de saber. Em minha opinião, é uma Psicologia do que é possível oferecer de ajuda humana naquela situação. Esta é uma Psicologia intersetorial, dentro da própria Psicologia. É uma prática de intervenções e que vai precisar trazer na sua bagagem a Psicologia Organizacional, a Psicologia Sócio-Histórica, a Psicologia Clínica, entre outras. O profissional precisa de todos esses aparatos para pensar e agir.

Existe esse trabalho aqui no Brasil?
Gagliato -
A Psicologia da Emergência no Brasil, assim como o seu nome, ainda é uma área em construção. É necessário empenho para desenvolver mais cursos de graduação e especialização nesta área e debater o assunto. E mais importante que estudar é organizar uma posição crítica sobre isso. O efeito midiático que a Psicologia da Emergência gera aqui no Brasil precisa ser estudado. Lá fora isso já acontece, agora aqui essa crítica ainda está morna. Lembro que participei de uma simulação emergencial nos EUA, realizada pela Care International. Eu tinha acabado de chegar à organização.

O facilitador dessa simulação era um psicólogo, e ele ficou interessado no meu trabalho. Quando falei para ele que estava trabalhando em prol do suporte psicológico aos agentes humanitários, ele levantou um questionamento interessantíssimo. Apesar de esse trabalho ser muito importante, é necessário se perguntar por que as pessoas se mobilizam tanto para responder a essas situações de crise, por que você tem esse circo humanitário passando de uma situação emergencial para outra sem qualquer limite ou parada. No circuito humanitário você monta acampamento, vivencia aquela situação, depois sai, vai para outra região, monta acampamento de novo, e é esse circuito exaustivo que precisa ser repensado e analisado.

Qual é o papel do Psicólogo nesse trabalho?
Gagliato -
A perspectiva da atuação do psicólogo, hoje, nas áreas de conflito, é a de trabalhar no que é possível. São intervenções que demandam alto grau de comprometimento e atenção. Há parâmetros básicos na Psicologia da Emergência que alguém que queira trabalhar nessa área precisa ter, como orientações mínimas e gerais para intervenções em saúde mental e psicossocial em situações de emergência. Com a experiência da atuação, é possível perceber que isso não é um manual clínico de como atender as pessoas, mas sim princípios gerais de relacionamento.

Em uma fase aguda, o psicólogo vai trazer um componente preventivo, que em minha opinião é fundamental, e se caracteriza como o maior investimento da Psicologia da Emergência. Por exemplo, avaliar os riscos das pessoas que vivem em determinada situação, analisar e entender a noção de espaço daquele paciente, de lugar, de pertencimento. Tudo isso vai facilitar essas pessoas a refletir a percepção dos riscos daquele lugar em que elas vivem. Lembro na época do Haiti, uma psicóloga aqui do Brasil entrou em contato comigo pedindo que eu desse uma orientação para um grupo de psicólogos aqui no país que seriam enviados para lá. Ela me disse que o grupo estava indo sem qualquer preparo, e a minha primeira orientação para o grupo foi que não fossem. É preciso que as pessoas estejam preparadas para encarar esse tipo de situação.

"O nosso gasto de energia e de conhecimento deve ser na construção de algo efetivo, de uma solução que tenha impacto a longo prazo"

quinta-feira, 28 de julho de 2011

CULTURA DA AUTOESTIMA É CONTESTADA POR PSICÓLOGA AMERICANA


Enquanto instituições, terapias, profissionais e livros seguem vendendo o "resgate da autoestima", a psicóloga americana Kristin Neff resolveu questionar um dos clichês mais repisados das últimas décadas.

Para ela, a cultura que incentiva em cada um a avaliação positiva de si mesmo contribuiu para a atual epidemia de narcisismo. Como alternativa, Neff, 44, defende o estímulo da autocompaixão, conceito budista que ela importa para a psicologia no livro "Self-Compassion", lançado em abril.

Folha - Como uma autoestima elevada pode fazer mal?
Kristin Neff - Não é o fato de ter uma autoestima elevada que é prejudicial, mas o que se faz para consegui-la ou mantê-la. Você precisa ser o número um, precisa se sentir especial e melhor do que os outros. Se, por exemplo, a sua performance no trabalho está abaixo da média, você se sente abaixo da média.

Dá para manter a autoestima sempre em alta?
Não, isso não é sustentável. Para manter a autoestima em alta precisamos nos sentir melhor do que somos e achar que os outros são piores do que são. Só que não dá para ser melhor do que os outros o tempo todo. Você se sente bem quando recebe aquela promoção no trabalho, mas também se sente péssimo se não recebe. É óbvio que essa instabilidade faz mal à saúde. Pode levar à depressão e à ansiedade. Não dá para confiar na autoestima porque ela logo abandona você.

Por que a busca pela boa autoavaliação é tão prejudicial?
Porque acirra a rivalidade e pode levar à agressividade. Há quem sustente que muitas crianças praticam bullying porque têm baixa autoestima. Na verdade, elas obtêm sua autoestima colocando os outros para baixo, provocando, batendo. Assim se sentem melhores do que os outros. Pessoas preconceituosas usam critérios como raça ou religião para se dizerem melhores em relação aos que integram os outros grupos. O preconceito vem desse sentimento de que o grupo ao qual pertenço é melhor do que o outro e de que tenho que me sentir melhor do que o outro.

Como a cultura incentiva essa busca de alta autoestima?
Desde cedo, com os pais, com a escola. Numa sociedade competitiva, você dirá às crianças que é preciso ser sempre o primeiro. Elas vão ficar se comparando o tempo todo, porque têm sido educadas na ideia de que devem sempre se sentir especiais e ganhar prêmios por serem as melhores. Todas essas formas de premiação que existem nas escolas incentivam a competição.

Qual o resultado disso?
Hoje, temos os maiores índices de narcisismo registrados graças a esse tipo de educação. É uma epidemia. Sou professora universitária há 12 anos e já vejo uma mudança nos meus alunos. Eles cada vez mais se sentem incomodados se tiram um B como nota. Meu filho ouve muito rap e eu noto essas letras lotadas de narcisismo.

Para ler a entrevista completa, clique aqui.

domingo, 3 de julho de 2011

A INTELIGÊNCIA HUMANA: ENTREVISTA COM MARCELA MANSUR-ALVES

Trarei ao palco um tema que mereceu calorosos debates no século passado e que, de certa forma, ainda é brasa que incendeia: a inteligência humana. Entrevistei, com esse intuito, a pesquisadora Marcela Mansur-Alves. A Marcela é graduada em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), possui mestrado em Psicologia do Desenvolvimento Humano (UFMG), é doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Neurociências da UFMG e é pesquisadora do Laboratório de Avaliação das Diferenças Individuais (LADI/UFMG). Ela tem especial interesse pelas áreas de Psicodiagnóstico/Avaliação Psicológica, Psicologia das Diferenças Individuais, Neurociências Cognitivas e Desenvolvimento Humano.


1 - Inicialmente, Marcela, conte-nos um pouco sobre seu percurso acadêmico (sobre como, por exemplo, você se interessou pela Psicologia Diferencial), bem como sobre quais são suas principais atividades atualmente.

Bom, eu creio que desde o início da graduação estive bastante envolvida com pesquisa. Comecei trabalhando com avaliação cognitiva de bebês e crianças fenilcetonúricas no Ambulatório São Vicente do HC-UFMG. A pesquisa era fruto de uma colaboração entre o Laboratório de Desenvolvimento Cognitivo e da Linguagem (UFMG) e do NUPAD (Faculdade de Medicina-UFMG) e foi uma experiência muito importante na minha iniciação na área científica. Trabalhei por dois anos nesse projeto, o que despertou meu interesse inicial pela avaliação. Logo depois, em 2002, envolvi-me em um mega estudo longitudinal desenvolvido pelo LADI, então coordenado pela profa. Carmen Flores-Mendoza. O estudo, cujo término será em 2012, objetiva avaliar e acompanhar o desenvolvimento cognitivo e de personalidade de crianças escolares. Entrei para o estudo como voluntária em decorrência do interesse em aprender um pouco mais na prática o que estava vendo nas disciplinas da área de Avaliação. Foi nesse momento que entrei em contato mais direto com a área da Psicologia Diferencial e, desde então, tenho trabalhado mais ativamente na área. Essa não é uma área muito difundida no Brasil, mas vem crescendo a cada dia. Enquanto a Psicometria/Avaliação Psicológica estão voltadas para a construção de instrumentos para a mensuração das características psicológicas e sua aplicação em contextos específicos, tais como a clínica e as organizações, a Psicologia das Diferenças Individuais investiga as origens, desenvolvimento e capacidade preditiva dessas características, tais como a inteligência e a personalidade humana. Em 2004, decidi entrar para o mestrado, o qual me possibilitou conhecer mais a área da Psicologia Diferencial. Realizei um estudo sobre a estrutura da personalidade infantil e sobre a capacidade preditiva desses traços em contextos como a escola e a saúde. E mesmo no intervalo entre o término do meu mestrado e o início do doutorado, quando estive mais envolvida com a docência e a prática profissional, estive em contato com a área por meio de grupos de discussão e colaboração em pesquisas. Atualmente, faço doutorado em Neurociências buscando uma interface entre esta e a Psicologia Diferencial. Venho desenvolvendo um programa de treinamento cognitivo para crianças com diferentes níveis intelectuais. A ideia não é apenas promover modificação na inteligência, mas também verificar se tal mudança é vista em nível de funcionamento cerebral. Os resultados encontrados no estudo piloto, feito no ano passado, foram bastante interessantes. 


2 - Que tal falarmos de um assunto ainda polêmico? O construto "inteligência" sofreu muitas críticas no final do século passado, entre as quais a de que não existiria a inteligência, mas as inteligências, e a de que, com efeito, não haveria um consenso sobre a definição do termo. Como você vê essas e outras críticas à noção de inteligência humana?

Na verdade, o estudo da inteligência humana sempre foi muito polêmico justamente pela importância que a inteligência assume em nossas vidas. Ninguém se ofende ao ser chamado de “tímido”, mas, em geral, ninguém gosta de ser chamado de “ignorante” ou “burro”. Da mesma maneira que quando digo que alguém é inteligente, isso funciona como um elogio. Talvez essa seja a razão de ser tão difícil aceitar que há o que a gente conhece como inteligência geral, ou seja, uma capacidade mental ampla de fazer escolhas, de resolver problemas, de se adaptar ao ambiente e compreender o mundo à nossa volta -- o que é independente do conteúdo da atividade ou problema. Uma pessoa com elevada inteligência geral é boa em quase tudo que faz, enquanto uma pessoa com deficiência mental possui extensas dificuldades para responder a demandas cognitivas de seu ambiente físico e social. É, então, mais fácil acreditar que existem várias inteligências e que cada pessoa é “boa” em uma delas. Embora haja uma grande quantidade de estudos em vários países que apresentam evidências favoráveis à existência de um fator geral de inteligência, o suporte científico para a existência de múltiplas inteligências é quase nulo.  Mas aí vocês me perguntam: se existe um fator geral de inteligência, por que então existem pessoas que se destacam em áreas tão diferentes? Por que algumas pessoas são boas em matemática e outras, em literatura e português? É porque existem as habilidades cognitivas específicas, tais como a compreensão e fluência verbal e o raciocínio abstrato. Elas não são inteligências diferentes, mas apenas formas diferentes de expressão da mesma inteligência. Einstein, por exemplo, tinha alta inteligência que se expressou especificamente através de conteúdos matemáticos e físicos, enquanto que Gandhi também com alta inteligência com maior facilidade para conteúdos verbais. Mas apesar das diferentes habilidades específicas, nenhum dos dois tinha dificuldade de fazer uma ligação telefônica, de pegar ônibus sozinhos, de se formar na faculdade, de conseguir um bom emprego, porque ambos eram pessoas inteligentes. Aí se encontra a diferença entre habilidades específicas e inteligências múltiplas. A teoria das inteligências múltiplas assume que as várias inteligências são independentes, enquanto que ao considerar a existência de uma inteligência geral eu assumo que as habilidades específicas estão relacionadas a ela. No exemplo que dei, a teoria das inteligências múltiplas nos diria que Einstein sendo um gênio matemático poderia ter uma inteligência verbal inferior, o que o levaria a ter um péssimo vocabulário, dificuldades enormes de interpretação de textos e de compreensão das situações e dilemas sociais. Contudo, quando penso em habilidades específicas e inteligência geral, posso afirmar que o fato de se destacar enormemente em matemática não faz com que Einstein não consiga ler e interpretar textos, se comunicar e se relacionar com as pessoas e muito menos que não tenha vocabulário suficiente  para escrever uma teoria, como o fez.

Quero apenas destacar que em diferentes culturais e momentos, determinadas habilidades cognitivas específicas são mais valorizadas do que outras. Há, ainda, o que chamamos de “talentos”. Os talentos são pessoas que realizam com alto grau de qualidade uma determinada atividade ou profissão, alcançando reconhecido sucesso. Por exemplo, Beethoven pode ser considerado um talento musical. 


3 - Como, no âmbito das neurociências, a inteligência é estudada? A propósito, haveria uma espécie de definição ou descrição neurobiológica da inteligência?

É importante destacar antes de começar a responder a essa pergunta que, de forma geral, há dois enfoques principais para as investigações neurobiológicas da inteligência. O primeiro está relacionado aos estudos em genética comportamental e molecular e o segundo engloba os estudos sobre a estrutura e a fisiologia do cérebro humano. Para responder a essa pergunta, vou me concentrar no segundo aspecto, ok?

O avanço alcançado pelas neurociências nos últimos 20 anos possibilitou compreensões importantes para as investigações sobre o comportamento humano. Isso também se aplica às investigações sobre a inteligência humana. Os primeiros estudos sobre a relação cérebro-inteligência estavam interessados em verificar associações entre o volume (tamanho) cerebral e o nível intelectual do sujeito, sendo que foram baseados nas concepções antropológicas e arqueológicas de que cérebros maiores seriam capazes de armazenar e processar maior quantidade de informação. Um grande conjunto de estudos aponta para a existência de associação entre volume cerebral e medidas psicológicas da inteligência e, embora consistentes, tais associações são pequenas ou moderadas. Com isso quero dizer que mesmo que cérebros maiores também tendem a ser mais inteligentes, o tamanho do cérebro nos conta apenas uma pequena parte da história sobre o nível intelectual de uma pessoa. Justamente por isso, os estudos subseqüentes se interessaram por investigar outras questões, como as áreas cerebrais ativadas durante tarefas cognitivas. Estudos como esses só foram possíveis graças ao enorme desenvolvimento alcançado pelas técnicas de neuroimagem como a Ressonância Magnética Funcional e a tomografia por emissão de pósitrons, que nos possibilitam “ver” o cérebro no momento em que está funcionando. Os resultados desses estudos mostram que diferentes áreas cerebrais são ativadas durante tarefas cognitivas específicas. Por exemplo, os córtices visual (fica na parte de trás do cérebro, do lado oposto à testa) e parietal (que é vizinho do córtex visual) são ativados durante tarefas cognitivas visuo-espaciais e o córtex temporal (fica mais ou menos acima das orelhas) durante tarefas de linguagem. Contudo, há evidências de que todo o córtex cerebral está envolvido na resolução de problemas, sendo que diferentes etapas da resolução de problemas aconteceriam em diferentes regiões cerebrais. A tendência atual está em verificar se o cérebro de pessoas com alta e baixa inteligência funciona da mesma maneira. Tais estudos são feitos através do controle do consumo de glicose durante a realização de testes de inteligência. Quanto mais o cérebro trabalha, mais ele precisa de alimento (glicose). A hipótese por trás desses estudos é de que o cérebro de pessoas mais inteligentes precisa trabalhar menos do que o de pessoas menos inteligentes para resolver um dado problema, sendo, portanto, mais eficientes. Vários estudos com pessoas de diferentes sexos e idades apresentam evidências favoráveis a essa hipótese. Em suma, o foco das investigações neurocientíficas está em verificar se a estrutura e o funcionamento cerebral diferem entre indivíduos mais e menos inteligentes.

Com relação à definição neurobiológica para a inteligência humana, apesar de não haver consenso, posso dizer que há uma tendência atual em considerar que a inteligência seria função de quão eficientemente o cérebro (aqui, no caso, as redes neuronais) humano processa informações. Assim, inteligência seria sinônimo de Eficiência Neuronal.


4 - Afinal, Marcela, nossas habilidades intelectuais são herdadas, aprendidas ao longo do desenvolvimento ou um pouco de cada?

São um pouco de cada. Os estudos em genética comportamental têm nos indicado que tanto a genética quanto o ambiente contribuem para as diferenças individuais em inteligência. A genética comportamental é uma área relativamente recente que se concentra em explicar porque as pessoas são diferentes com relação às suas características psicológicas. Eles estudam grupos de pessoas (famílias e irmãos gêmeos e não gêmeos biológicos e adotivos) para nos dizer o quanto das diferenças entre as pessoas pode ser atribuído aos genes ou a aspectos do ambiente. As pesquisas feitas indicam que a maior parte (cerca de 60%) das diferenças intelectuais entre as pessoas pode ser atribuída à genética, bem como que o restante ficaria a cargo do ambiente. Algumas das descobertas da genética comportamental são bastante interessantes. Veja: eles nos dizem que há dois tipos de ambientes: o compartilhado e o não-compartilhado. O primeiro se refere àquele ambiente que separa as famílias, como o nível socioeconômico, a escolaridade dos provedores e a religião, ou seja, características que compartilhamos apenas com os membros de nossa família. O segundo é aquela parte do ambiente que não compartilhamos nem com a nossa família -- em especial, nem com nossos irmãos. É a forma como nossos pais nos tratam, como são nossos amigos, nossos professores e colegas de classe, as experiências que tivemos quando estávamos na barriga das nossas mães etc. A genética comportamental nos diz que o ambiente não-compartilhado (30%) possui uma contribuição maior do que o ambiente compartilhado (10%) para as diferenças intelectuais entre as pessoas. Outra descoberta interessante é que a influencia da genética e do ambiente mudam ao longo do ciclo vital. Quando pequenos o ambiente possui maior influência, enquanto que à medida que crescemos a genética dita mais nossas escolhas em termos intelectuais.  Além disso, quanto maior a desigualdade econômica e social, maior a influência do ambiente na determinação das diferenças intelectuais entre as pessoas.  Esse achado se faz importante demais, tendo em vista que vai na mesma direção das pesquisas que mostram que, apesar da ampla determinação genética, o cérebro humano responde e se modifica em função do ambiente em que está inserido. Isso é o que chamamos de Plasticidade Cognitiva. O cérebro se modifica tanto em função de ambientes empobrecidos quanto de enriquecidos. Essas descobertas despertaram o interesse em desenvolver programas de treinamento para melhorar a inteligência, ou seja, a eficiência cerebral. Esses programas atuariam através do aumento do volume de estruturas específicas, como o hipocampo (envolvido com a memória declarativa), ou por meio da modificação do padrão de funcionamento cerebral. Conforme eu disse anteriormente, estou desenvolvendo um programa com esse objetivo para crianças. 


5 - Gostaria, para finalizar, que você nos deixasse dicas sobre o que podemos fazer para preservar ou até mesmo melhorar nosso rendimento intelectual.

A primeira dica que posso dar é para ficarem atentos quanto a fórmulas simples de modificação da inteligência que estão disponíveis na internet. Embora ter uma alimentação saudável, fazer exercícios físicos e não assistir tanto à televisão possam melhorar sua qualidade de vida, isso não torna ninguém mais inteligente. Se a modificação cognitiva fosse tão simples assim, os pesquisadores não estariam empenhando tantos esforços financeiros e humanos para desenvolver programas de melhoramento intelectual. Contudo, há algumas coisas que podemos fazer para prevenir o envelhecimento cerebral, e isso, por si só, já retarda o aparecimento de doenças que afetam a cognição, como o Mal de Alzheimer, e previne o declínio cognitivo. Por exemplo, ler livros, fazer palavras cruzadas, desenvolver atividades que requerem concentração, evitar a rotina, desenvolver hobbies -- enfim, todo tipo de atividade que estimula o cérebro. Há, ainda, sites que disponibilizam pacotes para melhorar aspectos específicos da cognição, como a memória e a atenção. Veja mais informações sobre tais programas nos seguintes links:
Fonte: Comporte-se Psicologia e Científica