segunda-feira, 1 de agosto de 2011

SOS AO CAOS DA HUMANIDADE



Localizado no sul da África, e fronteiriço com a República da África do Sul, Botsuana, Zâmbia e Moçambique, o Zimbábue hoje tem uma população local de aproximadamente 12.576.741 habitantes. Esse local, que enfrenta sérios conflitos internos, atualmente é a casa e o trabalho do psicólogo Márcio Gagliato, de 30 anos, que faz parte do grupo The Center for the Victims of Torture no Zimbábue, que auxilia vítimas de tortura naquela região. Como ativista humanitário há mais de cinco anos, Márcio já passou por diversas regiões do planeta, na busca por aplicar a Psicologia da Emergência com o objetivo de levar conforto e diálogo para áreas onde, muitas vezes, o caos impera. Há um ano no Zimbábue, o psicólogo já trabalhou em regiões como Rio de Janeiro, Timor Leste, Sudão, Somália e Ruanda. Márcio é psicólogo e mestre em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), foi integrante do Columbia University Human Rights Fellowship Program, dos EUA, e da bolsa para jovens investigadores do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, em Portugal. Já trabalhou em mais de dez países e passou por ONGs internacionais como CARE International, Save the Children e pela Unesco.



O psicólogo Márcio Gagliato tem a Psicologia da Emergência como sua principal aliada no trabalho que busca atender os agentes humanitários e grupos locais que vivem lado a lado com a guerra, a tortura e a fome.

O que é a Psicologia da Emergência?
Márcio Gagliato -
Eu não acredito que exista uma definição e um consenso real sobre esse tema. A Psicologia da Emergência é um termo que deve buscar sempre sua construção, principalmente aqui no Brasil. É uma área que tem chamado muito a atenção e despertado a curiosidade das pessoas. Eu, particularmente, tenho uma postura muito crítica à atualidade de toda essa curiosidade, no sentido de que esta é uma área muito importante e que não comporta a popularidade desejada. Acredito que antes de pensarmos em um papel puramente assistencial, devemos pensar, de antemão, em uma postura preventiva. O papel de remediar deveria ser minimizado, a resposta à situação de emergência é importante, mas não deveria ser fundamental.

Haja vista que o fator preponderante, que vai afetar diretamente a resposta à situação de emergência, é a parte de prevenção e desenvolvimento de certa área. Por exemplo, você pode passar a vida inteira respondendo uma emergência de crise de seca no centro-sul da Somália, no Quênia ou no Nordeste do Brasil. Pode distribuir comida para o povo da região o tempo todo, quando, na verdade, a resposta mais eficiente seria uma visão de desenvolvimento daquela área, não uma visão de responder à emergência pontualmente. O nosso gasto de energia e de conhecimento deve ser na construção de algo efetivo, de uma solução que tenha impacto a longo prazo. Existe um efeito midiático muito grande em torno das emergências. O exemplo mais contraditório foi o ocorrido no desastre do Haiti. O que foi investido naquela região depois da emergência não foi investido durante 10, 20 anos de situação de calamidade concreta. Eu não vejo a Psicologia da Emergência como uma nova área de saber. Em minha opinião, é uma Psicologia do que é possível oferecer de ajuda humana naquela situação. Esta é uma Psicologia intersetorial, dentro da própria Psicologia. É uma prática de intervenções e que vai precisar trazer na sua bagagem a Psicologia Organizacional, a Psicologia Sócio-Histórica, a Psicologia Clínica, entre outras. O profissional precisa de todos esses aparatos para pensar e agir.

Existe esse trabalho aqui no Brasil?
Gagliato -
A Psicologia da Emergência no Brasil, assim como o seu nome, ainda é uma área em construção. É necessário empenho para desenvolver mais cursos de graduação e especialização nesta área e debater o assunto. E mais importante que estudar é organizar uma posição crítica sobre isso. O efeito midiático que a Psicologia da Emergência gera aqui no Brasil precisa ser estudado. Lá fora isso já acontece, agora aqui essa crítica ainda está morna. Lembro que participei de uma simulação emergencial nos EUA, realizada pela Care International. Eu tinha acabado de chegar à organização.

O facilitador dessa simulação era um psicólogo, e ele ficou interessado no meu trabalho. Quando falei para ele que estava trabalhando em prol do suporte psicológico aos agentes humanitários, ele levantou um questionamento interessantíssimo. Apesar de esse trabalho ser muito importante, é necessário se perguntar por que as pessoas se mobilizam tanto para responder a essas situações de crise, por que você tem esse circo humanitário passando de uma situação emergencial para outra sem qualquer limite ou parada. No circuito humanitário você monta acampamento, vivencia aquela situação, depois sai, vai para outra região, monta acampamento de novo, e é esse circuito exaustivo que precisa ser repensado e analisado.

Qual é o papel do Psicólogo nesse trabalho?
Gagliato -
A perspectiva da atuação do psicólogo, hoje, nas áreas de conflito, é a de trabalhar no que é possível. São intervenções que demandam alto grau de comprometimento e atenção. Há parâmetros básicos na Psicologia da Emergência que alguém que queira trabalhar nessa área precisa ter, como orientações mínimas e gerais para intervenções em saúde mental e psicossocial em situações de emergência. Com a experiência da atuação, é possível perceber que isso não é um manual clínico de como atender as pessoas, mas sim princípios gerais de relacionamento.

Em uma fase aguda, o psicólogo vai trazer um componente preventivo, que em minha opinião é fundamental, e se caracteriza como o maior investimento da Psicologia da Emergência. Por exemplo, avaliar os riscos das pessoas que vivem em determinada situação, analisar e entender a noção de espaço daquele paciente, de lugar, de pertencimento. Tudo isso vai facilitar essas pessoas a refletir a percepção dos riscos daquele lugar em que elas vivem. Lembro na época do Haiti, uma psicóloga aqui do Brasil entrou em contato comigo pedindo que eu desse uma orientação para um grupo de psicólogos aqui no país que seriam enviados para lá. Ela me disse que o grupo estava indo sem qualquer preparo, e a minha primeira orientação para o grupo foi que não fossem. É preciso que as pessoas estejam preparadas para encarar esse tipo de situação.

"O nosso gasto de energia e de conhecimento deve ser na construção de algo efetivo, de uma solução que tenha impacto a longo prazo"

Nenhum comentário:

Postar um comentário