Segundo matéria publicada no site do Jornal Correio Brasiliense, a OMS estima que 1% da população mundial tenha esquizofrenia. É um transtorno bastante conhecido pela sociedade e, por ser um tema complexo e intrigante, aparece com certa frequência na arte, no cinema em especial. No entanto, este conhecimento quase sempre é reduzido ao senso comum, gerando muitos preconceitos.
Este trabalho tem como objetivo observar como se dá a representação da esquizofrenia no cinema hollywoodiano, verificando se a forma como ele caracteriza essa psicose colabora com o senso comum ou fornece um maior conhecimento sobre o assunto.
O corpus é composto por dois filmes de sucesso de crítica e público: Clube da luta (1999) e Psicose (1960).
Para isso, inicialmente foi realizada uma revisão bibliográfica sobre o tema, estudando a literatura de especialistas da saúde e psicanalistas. Em seguida foram escolhidos filmes cujo tema central seja a esquizofrenia. Por fim verificamos se a representação condiz com os traços descritos pela ciência, tais como alucinações, delírios, comportamento anti-social etc. Também foi realizado um estudo sobre a experiência proporcionada pelo cinema, constatando sua capacidade de influenciar o público.
1. Psicose e Esquizofrenia
Psicose é um estado psicopatológico no qual se verifica relativa “perda de contato com a realidade” e que, nos períodos em que se dão as crises, podem ocorrer delírios ou alucinações. Os delírios são crenças não verdadeiras que se baseiam em inferências incorretas sobre a realidade. Os tipos mais frequentes dos delírios psicóticos são os delírios de grandeza, de perseguição, hipocondríaco etc. As alucinações são falsas percepções do indivíduo que podem ser auditivas, visuais, gustativas, olfativas e táteis (PROESQ). Em relação ao comportamento do indivíduo, observam-se uma inquietude psicomotora, dificuldades na interação social e no cumprimento normal das atividades diárias, entre outras.
Dentre os conteúdos compreensíveis da psicose podem-se destacar alguns aspectos como a relação existente entre o conteúdo do delírio e as vivências anteriores do indivíduo. (JASPERS, 2000). Ou seja, o delírio não é, de todo, fora da realidade da pessoa, tendo sempre uma relação com os fatos de sua vida. Para Friedmann, toda formação delirante baseia-se no conflito vivencial que consiste no fato de a vontade individual ser dominada pela vontade total da comunidade. Há ainda o fato de que, em algumas vezes, o delírio representa condição necessária para aquele que delira e que, sem esse delírio, colapsaria. (JASPERS, 2000).
Diversas são as atitudes do indivíduo em relação à doença. Alguns apresentam incapacidade de reconhecer o caráter estranho do comportamento, outros apresentam medo diante da transição do estado consciente para o inconsciente. Há ainda aqueles que apresentam perplexidade, uma incapacidade de aprender vivências novas e aqueles que relatam os conteúdos delirantes sem preocupação ou constrangimento, preocupando-se apenas com recaídas ou internações. (JASPERS, 2000)
Dentre as psicoses, a esquizofrenia apresenta-se bem freqüente na população. Acomete 1% da população mundial e tem sua ocorrência entre o final da adolescência e início da vida adulta, dos 15 aos 25 anos, geralmente (PROESQ). De acordo com o Código internacional de Doenças (CID 10),
Os transtornos esquizofrênicos se caracterizam em geral por distorções fundamentais e características do pensamento e da percepção, e por afetos inapropriados ou embotados. Usualmente mantém-se clara a consciência e a capacidade intelectual, embora certos déficits cognitivos possam evoluir no curso do tempo. Os fenômenos psicopatológicos mais importantes incluem o eco do pensamento, a imposição ou o roubo do pensamento, a divulgação do pensamento, a percepção delirante, idéias delirantes de controle, de influência ou de passividade, vozes alucinatórias que comentam ou discutem com o paciente na terceira pessoa, transtornos do pensamento e sintomas negativos. (CID 10, cap.V. F20)
A mesma fonte também atenta para o cuidado de não fechar o diagnóstico em casos de esquizofrenia aguda, cíclica e reação esquizofrênica, visto que são eventos momentâneos. O mesmo vale para o transtorno esquizotípico, que é “caracterizado por um comportamento excêntrico e por anomalias do pensamento e do afeto que se assemelham àquelas da esquizofrenia, mas não há em nenhum momento da evolução qualquer anomalia esquizofrênica manifesta ou característica.” (CID10, cap.5) Bem como nos casos de alteração de personalidade pelo uso de substâncias químicas diversas.
A esquizofrenia pode ser classificada de acordo com alguns sintomas mais específicos: Paranóide (perseguição); Hebefrêmica (afetos); catatônica (psicomotor); e indiferenciada (características gerais). O CID10 caracteriza a chamada depressão pós-esquizofrênica, que ocorre após o fim de uma crise. Ela é caracterizada por uma desordem cerebral crônica, que é acompanhada por mudanças na percepção e no pensamento, delírios e alucinações. As alucinações mais frequentes em pessoas esquizofrênicas são as auditivas, com vozes sussurrantes ou claras, que discorrem sobre o comportamento da pessoa ou dá ordens e as visuais, podendo visualizar coisas ou, até mesmo, pessoas (PROESQ).
2. Cinema
O cinema foi criado no fim do séc. XIX e consiste na projeção de imagens sucessivas que geram a sensação de movimento. É considerado uma importante forma de arte e de entretenimento popular, conquistando a nomeação de Sétima Arte.
Com o aperfeiçoamento da tecnologia, algumas pessoas passaram a ver o cinema como uma possibilidade artística. Houve uma junção de várias artes: literatura, teatro, dança e música. E o próprio cinema criou técnicas de expressão tais como ângulos de câmera, passagem de cenas e etc. Assim o cinema virou a Sétima Arte, contemplando aspectos visuais e sonoros.
O cinema dá a impressão de que é a própria vida que vemos na tela, brigas verdadeiras, amores verdadeiros. Mesmo quando se trata de algo que sabemos não ser verdade, como o Pica pau amarelo ou O mágico de Oz, ou um filme de ficção científica como 2001 ou Contatos imediatos do terceiro grau,a imagem cinematográfica permite-nos assistir a essas fantasias como se fossem verdadeiras; ela confere realidade a estas fantasias. (BERNARDET, 1980, p.125)
Assim, o espectador acaba por considerar informações passadas direta ou indiretamente, desde que elas não pareçam estranhas o suficiente para serem negadas pela consciência.
Apesar de generalizar ao falar da passividade do espectador, a ideia de Mauerhofer é pertinente e remete a famosa política “pão e circo” do império romano, que nos dias de hoje pode ser representada pelo cinema hollywoodiano. Nesse sentido, ele fala ainda:
O cinema se coloca assim na posição de uma realidade irreal, a meio caminho entre a realidade cotidiana e o sonho meramente pessoal. A experiência do cinema canaliza a imaginação, dando-lhe ainda o alimento de que tanto precisa.
(MAUERHOFER, 1966. Apud XAVIER.1983,p.379)
(MAUERHOFER, 1966. Apud XAVIER.1983,p.379)
Como dito, esse aspecto de passividade se aplicaria mais aos filmes hollywoodianos, que são focados no mercado, ou seja, têm fácil assimilação e mais apoio popular. Isso justifica a escolha dos filmes ditos comerciais para este trabalho.
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Fonte: Psicologado

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