O homem costuma apresentar medo diante de situações desconhecidas, e a morte apesar de sabidamente inevitável é um evento que desperta angústia Em nossa sociedade não são poucas as tentativas de afasta-la e esquece-la.
O desconforto quando se trata de morte é bem visível, a busca pela “eterna juventude” e a crença em nossa imortalidade pessoal nos afasta ainda mais de qualquer referência a terminalidade ou qualquer coisa que a ela remeta.
Serão demonstradas aqui as mudanças constatadas no enfrentamento da morte desde a Idade Média, denominada por Philippe Áries (1977) de “morte domada” até o morrer contemporâneo: a “morte invertida”. O modo como a criança introjeta as situações a ela relacionadas bem como seu processo de enfrentamento e luto.
A morte tem tido diferentes representações a cada época, sendo assim, os medos e angústias referentes a ela vêm mudando também. Como afirma Kovács ao citar Philippe Áries:
A morte era esperada no leito, numa espécie de cerimônia pública organizada pelo próprio moribundo. Todos podiam entrar no quarto, parentes, amigos, vizinhos, e, inclusive, as crianças. Os rituais de morte eram cumpridos com manifestações de tristeza e dor, que eram aceitas pelos membros daquela comunidade. O maior temor era morrer repentinamente e sem as homenagens cabidas. (1977, p. 67)
Era um evento a ser compartilhado e havia uma familiaridade com a finitude, embora essa mesma ainda fosse acompanhada do medo dos mortos. A “morte domada”, como assim a denominou Ariés era aceita como parte indissociável da vida e eventualmente até desejada. Fazendo um apanhado do “morrer” atual pode-se verificar a inversão de valores que ocorreu desde então. Kovács (1992, p.47) cita Ariés:
O século XX traz a morte que se esconde, a morte vergonhosa, como fora o sexo na era vitoriana. A morte não pertence mais à pessoa, tira-se sua responsabilidade e depois sua consciência. A sociedade atual expulsou a morte para proteger a vida. Não há mais sinais de que uma morte ocorreu. O grande valor do século é o de dar a impressão que “nada mudou”, a morte não deve ser percebida. A morte boa atual é a que era mais temida na Antiguidade, a morte repentina, não percebida. A morte “boa” é aquela que não se sabe se o sujeito morreu ou não.
O “lugar de morrer” foi transferido para o hospital tirando-o do alcance dos olhos da sociedade, incluindo-se ai as crianças. Dentro dos hospitais o rastro da morte é silenciado de tal forma que tudo o que se quer após uma ocasião a ela ligada é esquecer e fingir que nada aconteceu.
A criança em processo de formação de significações não tem acesso a vivências que permitam uma devida elaboração de seus conceitos de morte, de perda e de dor já que situações referentes a isso são sempre evitadas e disfarçadas. Elas encontram, portanto o pacto de silêncio que a sociedade constitui em torno de assuntos considerados desagradáveis. Como a criança é o reflexo dessa sociedade, a menos que seja trabalhada também terá dificuldades para lidar com a finitude.
Com a “invenção da infância” (ARIÈS, 1977), surgiu uma tendência a separar o mundo dos adultos do mundo das crianças. A infância como a conhecemos tem sua gênese na tomada do poder pela burguesia simbolizada pela revolução francesa.
Os valores burgueses repassados em doutrina ideologicas implícitas pelas escolas, a diminuição do número de filhos e a nuclearização da família em torno dos mesmos, como conseqüência da urbanização, deu origem a infância como a conhecemos hoje: um templo isolado onde qualquer evidência da realidade considerada dura demais é logo afastada. Áries aponta que
Na Idade Média a educação das crianças era garantida pela aprendizagem junto aos adultos e a partir de sete anos, as crianças viviam com uma outra família que não a sua. Dessa época em diante ao contrário a educação passou a ser fornecida cada vez mais pela escola. A escola deixou de ser reservada aos clérigos para se tornar o instrumento normal da iniciação social. (1981, p. 84)
Apresentou-se nesse novo contexto a necessidade de isolar a juventude do “mundo sujo dos adultos” mantendo-os na inocência primitiva. A concentração da família em torno das crianças ficou em evidência bem como o sentimento de infância. Devido a essa proteção da qual se passou a fazer uso, as crianças tornam-se ainda mais suscetíveis ao sofrimento e medo diante da morte visto que são resguardadas de qualquer contato prévio com assuntos que a ela fazem referencias, que são “assunto de gente grande”.
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