terça-feira, 18 de outubro de 2011

CONSTITUIÇÃO PSÍQUICA




O mundo que habitamos não é somente o mundo da natureza, ele foi transformado pela cultura e tudo o que foi construído pelo homem tem o seu valor. Quando a criança nasce, ela se encontra na condição psíquica de infans, que se caracteriza inicialmente como um estado de fetalização. Denomina-se tal condição psíquica, pois ainda é um estado onde a criança ainda não passou pelas crises subjetivantes como o estádio do espelho e complexo de Édipo.

Segundo Lacan ( 1998,p. 100)  a função do estádio do espelho é estabelecer uma relação do organismo com a realidade. O estádio do espelho é um drama cujo impulso interno precipita-se da insuficiência para a antecipação e que fabrica as fantasias que se sucedem desde uma imagem despedaçada do corpo até uma forma de sua totalidade. O eu constrói-se à imagem do semelhante e primeiramente da imagem que me é devolvida pelo espelho - este sou eu. O bebê olha para a mãe buscando a aprovação do Outro simbólico. Lacan também enfatizou que o investimento da mãe, o olhar relacionado à imagem do filho que gostaria de ter, antecipa um sujeito que está por se constituir.

O sujeito que irá advir é algo formulado anteriormente, o bebê não nasce como eu, se desconhece, ele assume esta imagem antecipada, se identificando a ela, esse movimento se chama suposição de sujeito. Assim, Lacan atribuiu muita importância à presença do outro, que participa por meio do investimento nessa imagem da criança como eu ideal das expectativas e perspectivas dos sonhos mais antigos de seus pais.

A imagem, inicialmente, responde as leis do Outro, que introduz o princípio de alteridade, pois o semelhante é ao mesmo tempo outro, assim como o ego também é outro. (Lacan, 1976) diz que por meio desse investimento externo sobre o psiquismo vai ocorrer  um estado em que a criança investe toda sua libido em si mesma. A criança vai poder reconhecer-se. Quando se constrói essa imagem de si mesmo, vai ser defendida como uma necessidade de satisfação narcísica, que se transformará na demanda de ser objeto do amor de um outro.

 O falo da mãe é completado com o nascimento do filho, pois ela deseja ter um filho, reconhece que seu filho é um ser humano e este chora porque está com fome e lhe dá o seio para a satisfação do bebê . A mãe supõe que o filho precisa dela e supõe que ela tem o que o filho precisa. O bebê antes do Estádio do Espelho se sente como um corpo fragmentado. Sua mãe faz parte dele e ela sente como se ele fosse parte dela. O bebê busca o prazer através do seio materno, porém só quando o bebê perde o objeto do seu desejo é que ele percebe que sua mãe não faz parte do seu corpo e não é completa. Esta perda vem através do significante do pai que são as leis e limitações naturais da vida.

No jogo do fort-da, onde uma criança constrói as primeiras simbolizações, a criança cria um objeto que permite simbolizar a ausência da mãe tornar presente a primeira experiência de brincar. Este objeto passa a ser construído no campo do Outro, visto que ele representa a emergência do desejo e este sempre ocorre no campo do Outro. Para Freud, a criança brinca porque deseja.

Em Lacan, o brincar é um ato, surgido como efeito da estruturação significante do Sujeito. O que importa é o brincar e não o brinquedo, pois o brincar faz a criança querer conhecer o outro.

O vínculo que estabelece a criança é a parentalidade, que está estruturada a partir de 3 eixos, que é o exercício (contexto jurídico), experiência (experiência subjetiva de tornar-se pai ou mãe) e a prática (cuidados, ocupações cotidianas físicas e psíquicas). Cada um deles legitima o outro mas são diferentes.

A criança é marcada desde o nascimento, pelos afetos, carinho e olhar materno, que possibilita a inscrição do desejo daquele que ocupa esta função tão fundamental. O simbólico antecede o imaginário. A escolha do berço contém o desejo dos pais, a forma como é pensado o quarto, o nome, entre outras, acontecendo esse processo simbólico. Para a mãe, a criança é parte e extensão desta, que se apropria dela até que aconteça o corte. Nascem imersas num campo recheado de desejos e fantasias inconscientes dos pais, assim como suas renuncias e traumas que são carregados de imagens, símbolos e emoções.

Quando a criança nasce,  ela se depara com a cultura e o encontro da cultura com sua aparelhagem biológica e seu sistema nervoso central vai surgir o psiquismo. A criança é introduzida ao mundo simbólico por quem irá cumprir para ela as funções essenciais de humanização: a função materna e a função paterna. A função materna é constituída pelos cuidados básicos que vão permitir que o bebê sobreviva, pois o bebê precisa que alguém exerça para ele a função materna. Ele precisa mais do que só satisfazer suas necessidades biológicas.

A mãe satisfaz a criança primeiro com a amamentação e também pelos seus afetos, seus desejos, seus sintomas, que se estendem ao filho para serem simbolizados. Nesta simbolização a criança pode apreender o fato crucial para sua existência: a ter sido ou não uma criança desejada. Tudo isso que a mãe está dando a mais, vai permitir sua sobrevivência psíquica. A mãe passa a lhe oferecer um olhar, palavras, toques carinhosos e isso vai construindo no bebê uma vida mental. Segundo Leda Bernardino (2008, p.60) “ele vai estar vivendo experiências que tem significação, a partir do que o outro materno vai passando para ele como experiências boas ou ruins”. Para que uma mãe possa fazer essa função com o bebê, é necessário que ela esteja presente com a sua vida mental, com seu desejo.

Um exemplo é quando a mãe está amamentando o bebê, onde deve olhar para a criança, sentir-se mãe dela. Não se trata só de alimentar o filho, mas de viver com ele uma experiência prazerosa, que também é simbólica, de reconhecimento onde ao mesmo tempo que ela está reconhecendo-o como o filho, está sendo reconhecida nessa nova função. A presença materna é o que permite o encontro entre mãe e bebê, no qual se estabeleça um diálogo, um reconhecimento entre eles. O pai exerce a função de corte da simbiose mãe-bebê para retirada da criança do assujeitamento materno e assim possibilitar a organização dos elementos que vão marcando e formando um novo sujeito.

Para ler o artigo completo, clique aqui.

Nenhum comentário:

Postar um comentário