"Para além do corpo biológico e da fome fisiológica, existe um corpo que demanda, mas não se sacia. (CRISTIANE SEIXAS, 2009)"
Não é difícil perceber que quase todos os materiais que abordam a obesidade referem-se a ela como epidemia do século ou ainda como um grave problema de saúde publica. Realmente é visível o progressivo crescimento da obesidade na população mundial. Mas o que se percebe ao olhar com mais atenção para as pessoas que apresentam problemas com o excesso de peso, é que elas não estão felizes.
O que fez despertar o interesse sobre o tema da obesidade foi a escassa disponibilidade de referencial bibliográfico com enfoque nas questões psicológicas que acarretam a obesidade. Outro motivo foi a compreensão de que são os próprios conflitos desenvolvidos pelo ser humano desde sua concepção, e principalmente na sua infância, que podem desencadear a construção de um corpo obeso.
Esse corpo obeso pode ter incontáveis significados que o indivíduo carrega dentro de si sem ao menos dar-se conta disso. E a investigação do espaço interno à procura das verdadeiras razões de “ser” de cada indivíduo é um caminho que a psicanálise ajuda a trilhar.
Esta pesquisa deixa de lado o campo médico, e clinico do tratamento da obesidade, e propõe através de revisão bibliográfica sobre o tema, promover a visão da obesidade como representante de um estado de doença e sintoma. Será exposta a relação mente-corpo na formação de sintomas e que, a relação de um indivíduo com seu corpo está além da noção de um corpo biológico. Sobretudo, o objetivo maior é pesquisar sobre como a obesidade pode ser articulada à concepção psicanalítica de formação de sintomas.
A obesidade será vista aqui como resultado da alimentação exagerada que pode ter, por trás dela, motivos desassociados da alimentação como forma de sobrevivência. Esse apetite exagerado representa muitas vezes, os papéis distorcidos que a comida alcança na vida de pessoas que sofrem com a obesidade.
O que se pode constatar, é que para alguns indivíduos, o alimento se transforma ao longo da vida, em objeto das relações dessas pessoas. A conseqüência dessa relação é que o alimento perde seu papel essencial de nutrição, e passa a servir como instrumento que alivia os momentos de ansiedade e medo.
O que é obesidade
A obesidade é considerada uma síndrome multifatorial, e de acordo com o INBIO (Instituto Brasileiro Interdisciplinar da Obesidade), nessa síndrome, a genética, o metabolismo e o ambiente interagem, assumindo diferentes quadros clínicos, nas diversas realidades sócio-econômicas.
Romaneli (2006), ressaltou que para a OMS (Organização Mundial de Saúde), a obesidade é o acúmulo excessivo de tecido adiposo (gordura) no organismo, atingindo hoje, cerca de um terço da população mundial. A OMS considera a obesidade um dos dez principais problemas de saúde publica do mundo e a classifica como epidemia, sendo que suas causas são múltiplas, envolvendo fatores genéticos, metabólicos, comportamentais, emocionais, culturais e sociais, suscitando a atenção de profissionais de diversas áreas, e embora a diferença entre a normalidade e o excesso de peso seja arbitrário, é prudente considerar como medida o quanto à saúde física e psicológica são afetadas e a expectativa de vida é reduzida em função do aumento do peso.
Mascarenhas (1985), constatou que das pessoas que sofrem com algum tipo de obesidade, 2% derivam de causas endocrinológicas, outros 8% são diabéticos e não produzem insulina no organismo suficiente para metabolizar os alimentos. Existem também aproximadamente 10% de pessoas com tendência genética a obesidade, portanto herdam a gordura de seus antepassados e provavelmente mais uns 10% que são obesos na vida adulta por terem sido crianças gordas [1]. E ainda pode-se contar 10% que desenvolvem a obesidade por aspectos culturais sejam esses aspectos hábitos familiares, sociais ou étnicos.
Assim, os dados acima descrevem as causas de 40% das pessoas com problemas de obesidade, restam 60% das pessoas obesas que certamente desenvolveram esse problema devido a causas emocionais. Ainda de acordo com Mascarenhas (1985), dizem os médicos que as pessoas engordam apenas por comerem em excesso ou porque descontam suas ansiedades, carências e depressões na comida, mas nem sempre consegue-se explicar porque que esses problemas levam as pessoas a comerem demais.
A falta do entendimento clínico do porque a pessoa obesa come demais mesmo que lhe traga sofrimento e complicações, se torna um impasse na experiência clinica, de acordo com Seixas (2009), variados métodos são utilizados para diagnosticar, e estabelecer tratamentos da obesidade, e que a maioria destes métodos está baseada em critérios científicos e fisiológicos estabelecendo, na maioria das vezes, um tratamento baseado em dados objetivos, desprezando os fatores subjetivos que possam interferir nesses resultados.
De um modo geral, a abordagem da obesidade está alicerçada no binômio saúde-doença, e busca através do emagrecimento o restabelecimento de um estado em que a saúde é associada ao corpo magro. Para Seixas (2009), a vinculação do binômio é marcada pela idéia recorrente de que a doença principal é a obesidade, e que ela é que desencadeia outras doenças associadas, chamadas comorbidade. A conseqüência dessa perspectiva é o crescimento de atitudes e crenças naturalizadas tanto no meio médico como no social, de que o obeso não emagrece por preguiça, desleixo ou falta de “força de vontade”.
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Fonte: Psicologado

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