A sociedade contemporânea experiência um certo amortecimento ético em todos os seus setores. A religião, objeto de nosso estudo, já não consegue dar um respaldo positivo às questões postas. A crise ética à qual estamos imersos tem seu agravante desde Auschwitz.
Após esse desastroso evento ficou-se ainda mais difícil falar sobre a formação do sujeito, o que acarretou uma série de crises - que tem suas raízes no campo ético - na sociedade [1]. Propor uma formação do sujeito ético é a tarefa mais difícil na contemporaneidade, haja vista que todas as instituições, com as quais poderíamos contar para essa árdua tarefa, encontram-se em crises, como já foi dito anteriormente; e o pior é quando uma para se eximir joga para a outra a responsabilidade pela formação do sujeito.
O certo é que nem a família, nem a escola, nem mesmo a religião conseguem dar respostas plausíveis à problemática existente e que se agrava a cada dia. E o resultado dessa crise é observável em toda a aldeia global. Ora, estamos experienciando um certo retorno à animalidade, e isso se explica pelos altos índices dos mais variados tipos de violência, física, moral, sexual, como também por um consumismo exacerbado, pelo comércio do corpo, tudo isso pela busca de uma satisfação imediata do prazer.
No campo do sujeito individual estamos vivenciando a “Era de Narciso” em seu agravante, onde tendemos a nos esconder em um mundo irreal. E falar em ética para uma sociedade extremamente egocêntrica, voltada à vivência de um amor-próprio, é algo minuciosamente difícil. Para não incorrermos em um erro ainda mais agravante faz-se necessário ir a fundo na problemática, sem superficialidade nos discursos, buscar no íntimo da subjetividade humana razões para se vivenciar uma ética, pautadas no desejo, que é inerente a sua existência.
No que concerne ao discurso ético-religioso, evidenciar a crise existente e apontar caminhos para a constituição do sujeito ético na atualidade talvez seja a maior contribuição que se possa oferecer a este sujeito que aparentemente parece não ter perspectivas de futuro. Para tanto, é preciso compreender como se deu o processo constitutivo da religião e quais as inferências desta para a vida do homem. Para esse itinerário, Freud pode nos ajudar no sentido de compreender a religião e a ética como algo inerente à civilização, evento que tira o homem da animalidade e o torna um ser sociável.
Aqui, pretendemos restringir o nosso discurso e discorrer, num primeiro momento, acerca da crise ética na religião, evidenciado por Silveira, quando diz que “ao entrar na modernidade a ética e a religião entraram em crise, uma vez que na sociedade da técnica não há mais lugar para a tradição” [2] e, depois oferecer um cabedal de reflexões concernente à constituição do sujeito ético.
O problema da cultura, portanto dessa religião e dessa ética, provindos de uma tradição, já foi evidenciado por Freud, em “O Mal estar na Civilização”, onde nosso autor contesta esse nosso processo civilizatório, embora der nuances duvidosos acerca da possibilidade de que seríamos mais felizes se abandonássemos tudo e retornássemos ao estado primevo [3]. O preço que o homem paga em nome de um projeto civilizatório é muito alto. Sérgio Paulo Rouanet nos explica melhor:
Para Freud, esse mal-estar, Unbehagen, é o desconforto sentido pelo individuo em conseqüência dos sacrifícios pulsionais exigidos pela vida social. No plano erótico, ele abre mão do incesto em benefício da sexualidade exogâmica, da “perversidade polimorfa” em benefício da genitalidade, e da promiscuidade em benefício da monogamia. E abdica da gratificação dos seus impulsos agressivos [4].
Freud não somente evidenciou, como também constatou que a promessa civilizatória fracassou por não corresponder mesmo com os anseios do homem, ou aquilo a que se propunha. Herrero aponta para quatro vergonhas político-morais que afetam gravemente a nossa existência, como conseqüência da falsa promessa do pensamento iluminista, quais sejam:
a fome e a miséria que conduz à inanição e a morte de um número cada vez maior de seres humanos e de nações; a tortura e a contínua violação da dignidade humana; o crescente desemprego e disparidade na distribuição de renda e riqueza; a ameaça de destruição da humanidade pelo perigo, de uma guerra nuclear e pelo desequilíbrio ecológico [5].
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Fonte: Psicologado

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