sábado, 30 de julho de 2011

"CARTAS A UMA JOVEM PSICANALISTA" REVELA LADO HUMANO DA PROFISSÃO


Dúvidas da profissão, transferência, narcisismo, modos de operar a teoria na prática e como confrontar casos graves de neurose e psicose. Esses são alguns dos temas que perpassam as páginas de "Cartas a uma Jovem Psicanalista" (Perspectiva).

O texto calmo e convidativo do brasileiro Heitor O´Dwyer de Macedo apresenta a psicanálise de uma forma que foge de jargões técnicos e busca, à medida do possível, falar sobre teorias dos principais nomes da área, de Freud à Lacan, dos sintomas atuais que agridem a sociedade e como garantir a tranquilidade aos pacientes nos processos de análise.

A "jovem psicanalista" do título é uma personagem ficcional, naturalmente, mas os conteúdos das cartas de Heitor são aqueles que qualquer interessado no funcionamento da mente humana gostariam de receber. Seu papel, nesse caso, é como o de um tutor, que responde as principais questões e medos de um profissional que se inicia na carreira. Tanto pela experiência própria da clínica, ou pelos ensinamentos que teve com os seus tutores, é admirável a capacidade do autor de esclarecer os assuntos, sugerir caminhos e acalmar seu correspondente.

Heitor radicou-se na França para concentrar seus estudos, e no processo teve a oportunidade de trabalhar e estudar com Françoise Dolto, e, atualmente, destaca-se como um dos principais nomes em atividade naquele país. Sua obra foi elogiada pelos colegas de profissão e virou referência para as novas turmas.

Em entrevista à Livraria da Folha, ele comenta um pouco sobre seu livro, o papel da psicanálise na mídia e dos sentimentos que aguarda dos leitores brasileiros.
Confira.

Livraria da Folha - No Brasil, percebemos um momento curioso de retorno à psicanálise, tanto na mídia com opinião de profissionais quanto nas universidades e uma boa safra de livros publicados, de autores estrangeiros e nacionais. Na contramão disso, também enxerga-se em outro plano o interesse pela neurociência e a popularização de remédios. Como analisa o momento da psicanálise a partir da França, atualmente, um dos grandes centros do mundo?

Heitor O´Dwyer de Macedo - Freud sempre foi implacável na sua afirmação que a psicanálise não pertence ao campo da medicina. Na França este distinção permitiu à psiquiatria integrar no seu encontro com os pacientes psicóticos a teoria freudiana. Isto fez da psiquiatria francesa a melhor do mundo - entre 1945 e os finais dos anos oitenta. Os grandes avanços realizados pela neurociência devem ser saudados por aquilo que são : uma contribuição gigantesca no conhecimento do funcionamento do cérebro. Quanto à tentativa cientista de reduzir os sentimentos e o sofrimento humano às moléculas - que é a tendência na França de hoje - isto nada mais é do que a retomada de um delírio que já existia no século XIX e que encontrou no nazismo a sua expressão racista e ideológica cujos resultados trágicos constituem a maior catástrofe na historia da humanidade.

Seu livro "Cartas a uma jovem psicanalista" tem um texto elegante e até romanceado. Em sua introdução, cita a influência de Rilke em sua feitura. Acredita que um assunto, muitas vezes complicado, como a psicanálise precise de mais textos de "cartas" e "diários" para descomplicar um pouco as coisas? Para chegar mais proximo ao leitor de hoje que não tem a tradição de estudos dos tempos de Freud, por exemplo?

O livro de Rilke me serviu como modelo de enunciação. A forma de cartas dirigidas a uma jovem psicanalista permitia que eu me livrasse do discurso universitário, discurso que destrói a psicanálise. Mas a relação da psicanálise com a literatura é um caso de amor paixão. Freud era um grande leitor, dos clássicos e dos contemporâneos, conhecedor profundo de Shakespeare e de Cervantes (aprendeu espanhol para ler Don Quixote no original). Foi próximo dos grandes escritores e poetas de seu tempo. E a sua leitura de Sófocles, como sabemos, teve consequências radicais na instituição da cultura.

Freud ganhou apenas um prêmio durante sua vida : o prêmio Goethe, distinção máxima na literatura alemã, e que celebrava a força e a clareza de seu estilo. Sem dúvida alguma, os textos de Freud sobre psicanálise são legíveis para qualquer pessoa que tente pensar sua vida, que tente ser sujeito der sua existência. Tal clareza na exposição era também uma necessidade: demonstrar que a psicanálise não era uma prática esotérica, mas sim um instrumento capaz de aumentar a nossa força de presença aos nossos próprios sentimentos, e a força de nossa presença no mundo.

Ora, tal clareza nas formulações da descoberta do inconsciente é fundamental na clínica, nas interpretações propostas ao paciente. Cada cura é uma experiência onde cada paciente redescobre para si mesmo, e de maneira absolutamente singular, os processos inconscientes até então desconhecidos. A psicanálise não escapou ao perigo do dogmatismo que corre qualquer atividade de pesquisa que constrói um conjunto doutrinal. E eu estou convencido que a revitalização da psicanálise depende, em grande parte, que os psicanalistas voltem a escrever com as mesma preocupação que orienta o diálogo com seus clientes : a de encontrar uma harmonia entre sua inteligência da experiência e o seu cuidado de não ferir a sensibilidade do paciente - o que se chama o tato. (A interpretação psicanalítica é uma prática poética.) Quando a procura desta harmonia se perde, a psicanálise, para parafrasear Marx, passa a ser simplesmente um meio de explicar o funcionamento psíquico ao invés de transformá-lo.

Para ler a entrevista completa, clique aqui.

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